A tradução é boa?
O caminho até uma resposta justa e responsável
Nossa, esse livro está meio esquisito. Deve ser problema da tradução.
Está aí uma sacanagem imensa. Ora, sem conhecer o texto em sua língua original, o que faz alguém pensar que é do tradutor a culpa por uma versão truncada em português? Não passa pela cabeça que tal literatura pode ser mesmo uma bomba e que, na verdade, o tradutor foi brilhante em conseguir verter aquela trolha com todas as suas arestas para outro idioma?
Muitas vezes, principalmente quando falo sobre livros consagrados, as pessoas me perguntam o que achei da tradução. Sempre dou um jeito de responder. Confesso, contudo, que é uma pergunta que me deixa um tanto desconfortável.
No mundo ideal, não faria sentido falarmos de uma tradução sem levar em conta dois elementos fundamentais: acesso ao texto original e conhecimento suficiente para compreendê-lo no idioma de partida. Daí sim daria para avaliar com justiça como a coisa ficou no nosso português.
O que é uma boa tradução? Aquela que mantém o conteúdo? Que segue a sonoridade, certa lógica frasal? Que consegue adaptar as figuras de linguagem? Que recria situações para um público de cultura diferente? Um mundo de perguntas caberia aqui.
Há quem defenda - e tendo a concordar - que traduções envelhecem mais rápido do que os originais. Outro dia publiquei versões diferentes em português para o mesmo trecho de “Dom Quixote”. Dá para perceber como tradutores excelentes tomaram caminhos bem distintos na hora de verter o clássico de Cervantes.
Podem reparar: a coisa mais rara é eu jogar pedras em qualquer tradução. Aponto a editora, aponto o tradutor e boa. Se normalmente falta base sólida para cornetar, então também faltam fundamentos para elogiar. Há situações, porém, que exigem um esforço a mais.
Outro dia celebrei o trabalho que Silvia Massimini Felix tem feito na tradução de Gabriela Cabezón Cámara para o português. É um elogio que sai tranquilo por eu ter em mãos tanto o original da Eterna Cadencia quanto a tradução publicada pela Moinhos de “La Virgen Cabeza”, que aqui virou “Nossa Senhora do Barraco”, só para ficar num exemplo.
No sentido inverso, há semanas que venho remoendo algumas opções de Mariana Carpinejar na hora de traduzir “As Cartas do Boom” (Record). Já falei bastante desse livro que reúne correspondências trocadas entre quatro gigantes: Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa.
Numa das cartas de García Márquez, Mariana traduz “carajo” como “caramba”. Em outra, do mesmo autor, “pendejo” vira “desavisado”. Ora, estamos falando de Gabo. E não só. De Gabo em um espaço profundamente íntimo e seguro.
Estou convencido de que, caso escrevesse em português, o colombiano teria usado mesmo é “caralho” no lugar de “carajo” e algo como “idiota” ou “imbecil” para “pendejo”. Como observou um amigo, nunca vimos alguém xingar o outro de “desavisado” - e “pendejo” é achincalhe frequente em espanhol.
Ainda nessa toada, deu um bom trabalho entender onde estava o problema de “As Margens e o Ditado”, livro de memórias de Elena Ferrante.
Em certa altura, o leitor é levado a acreditar que Ferrante teve acesso a “Memórias do Subsolo“, de Dostoiévski, graças a Boris Schnaiderman, grande tradutor do russo para o português. O crédito ao profissional morto em 2016 aparece como parte do texto escrito pela própria autora, não num adendo ou numa nota.
Fiquei encucado: Ferrante lê em português? Ou será que Boris também traduziu para o italiano? Nada disso. Na edição original de “I Margini e il Dettato”, publicada pela Edizioni E/O, verifiquei que Ferrante atribui a Paolo Nori o mérito pela tradução que lhe permitiu tal leitura.
Alguém aqui pode achar que a culpa tenha sido do tradutor, Marcello Lino, mas não seria a minha aposta. Qualquer virtude ou mazela da tradução também deve ser vista como um problema de edição. No caso, a Intrínseca me informou que escolheu o caminho para evitar notas de rodapé.
E por que digo tudo isso?
Para deixar claro que não é razoável ser leviano. Nem com o meu trabalho nem com o trabalho de outros profissionais.
Então, leitor, pode acreditar, mesmo uma pergunta aparentemente simples como “você recomenda essa tradução?” ou “a tradução é boa?” exige uma reflexão bem mais aprofundada do que aparenta para que a resposta seja tão precisa quanto responsável.

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Clube de Leitura Página Cinco
Temos uma novidade no Clube de Leitura Página Cinco!
Neste semestre leremos um livro a mais, um Dostoiévski. Conversaremos sobre “Memórias do Subsolo” em maio (tenho aqui a edição da 34 com tradução de Boris Schnaiderman, mas podem escolher outras).
O encontro sobre “Certo Azul”, de Fernando Contreras Castro (Zain, tradução de Leonardo Pinto Silva), rolou na última segunda - e foi ótimo! Então, a programação ficou assim:
No dia 30 de março, às 20h, encontro para papearmos sobre a vida.
No dia 27 de abril, às 20h, conversaremos sobre “O Bom Mal”, de Samanta Schweblin (Fósforo, tradução de Livia Deorsola)
LEITURA EXTRA: No dia 25 de maio, às 20h, conversaremos sobre “Memórias do Subsolo”, do Dostoiévski
No dia 22 de junho, às 20h, conversaremos sobre “O País dos Outros”, de Leïla Slimani (Intrínseca, tradução de Dorothée de Bruchard)
Lembrando: o Clube é um benefício para os assinantes que colaboram para que a Página Cinco siga firme.
📢 O que mais rolou na Página Cinco
📝 Livros no carnaval? Cada um com a sua folia, pô!
📝 Beleza e graça no esporte mais bonito do mundo
📝 A onda dos livros magrelinhos: é tolice se privar dos tijolos literários
📝 O escritor ateu que viajou até o ‘fim do mundo’ com Papa Francisco: resenha de “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, de Javier Cercas (Record, tradução de Joca Reieners Terron)






Ótimo texto! Sou pesquisadora de tradução e é muito bom ver alguém que se atenta ao textos traduzidos e não apedreja os pobres profissionais. Em relação à tradução das cartas, pode até ter sido uma decisão editorial... Algumas editoras colocam como regra não usar palavrões nas traduções.
O trabalho em edição editorial é um sem fim de detalhes e opções. Editar uma publicação é decidir... Não reclamo da minha profissão, essa que às vezes é tão exigente e cansativa.
Uma das vantagens é que a idade cai bem a quem nela trabalha... :))