Arte e religião como uma coisa só
“A poesia é a capacidade de contemplar o visível e o invisível, o que podemos tocar e o que permanece um mistério”
Ler Jon Fosse soa como uma oração para um ateu, escrevi outro dia. Seu ritmo, suas repetições, sua circularidade têm um efeito hipnótico, às vezes vertiginoso. É bonito menos pelo que narra - muitas de suas tramas podem ser condensadas numa frase curta e tola - e mais pela forma como narra.
Colar religiosidade a Fosse é fácil. A transição tardia para o catolicismo é um aspecto central na sua biografia e na parte mais recente de sua obra. Não custa lembrar, a Noruega, país do autor, é cheia de ateus e luteranos. Católicos por lá são raros, não mais do que 5% da população de 5,6 milhões de pessoas.
Fosse é um cara péssimo de entrevistas. Estaria perdido caso dependesse de sua lábia para vender livros. É lacunar, soa um tanto alheio, parece fazer um esforço tremendo para elaborar respostas insossas.
Ainda assim, é bonito ouvi-lo falar sobre como foi atraído para a religião. Fosse pouco diz a respeito de deus, vida após a morte ou promessas do além. Fala, isso sim, sobre liturgia, ritual, cerimônia. A impressão que dá é que, para o escritor, a forma como se celebra a fé é mais importante do que a crença em si.
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Resenhei “O Louco de Deus no Fim do Mundo” lá na coluna do Uol (Record, tradução de Joca Reiners Terron). Um dos principais autores vivos da língua espanhola, Javier Cercas recebeu um convite improvável do Vaticano: acompanhar o séquito do papa Francisco numa viagem para a Mongólia.
Cercas narra esse périplo no volume cheio de diálogos, pesquisas em acervos e impressões do autor sobre diferentes temas. Descobri, vejam só, que somos colegas de corrida.
O espanhol percorreu um caminho diferente do de Fosse. Criado num país profundamente religioso e filho de católicos dedicados, fez-se ateu e encontrou na arte muito do que outras pessoas procuram na religião.
Entendeu o que o escritor italiano Cesare Pavese queria dizer com “a literatura é uma defesa contra as ofensas da vida” ao compreender o lado existencial da arte. Ao contar que a literatura se tornou um sucedâneo da religião, Cercas escreve:
“Me aventurei a buscar nela um substituto para a fé perdida, para as certezas e a paz de espírito que a religião proporciona. Não é preciso dizer que essa busca era um erro, porque a literatura não proporciona nem paz de espírito, nem certeza: o que ela proporciona são novas perguntas, novas inquietações, nenhuma resposta”.
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Enquanto Mario Bergoglio, padre que deu aulas de literatura, e depois como Francisco, o antigo líder do catolicismo também reverenciava a literatura. Cercas celebra estar próximo a um sujeito que não confundia arte “com propaganda, nem com pedagogia”.
O espanhol se surpreende ao ouvir Francisco elogiar a ironia, que considerava uma virtude maravilhosa, e reconhecer que é função dos artistas mostrar que os humanos não são feitos apenas de virtudes. Para o antigo papa, arte e fé se aproximavam pelas perturbações provocadas:
“Nem a arte, nem a fé podem simplesmente deixar as coisas como estão. Ambas as mudam, as transformam, as convertem em outra coisa”. São palavras de Francisco registradas pelo autor.
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Conversa aqui, pesquisa ali, viaja acolá…
Um homem da igreja lembra a Cercas que, certa vez, após uma passagem pelo Japão, Francisco afirmou que o Ocidente poderia aprender um pouco de poesia com o Oriente. O cardeal explica: “A poesia é a capacidade de contemplar o visível e o invisível, o que podemos tocar e o que permanece um mistério”.
Bem mais tarde, depois de acompanhar uma cerimônia, Cercas lembra do papo que teve com um cardeal que também era poeta. Ambos pensam da mesma maneira: “A fé é uma intuição poética que só pode ser expressa em linguagem poética”.
Essa forma de enxergar o elo entre religião e arte imediatamente me leva a Jon Fosse.
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Comecei a ler “Heptalogia”, o exagero de quase 700 páginas - e páginas graúdas - de Fosse (Fósforo, tradução de Leonardo Pinto Silva). Precisei parar por conta de leituras obrigatórias e de outros livros que também me atraíram. Não sei quando retomarei. Sei menos ainda quando irei finalizá-lo.
Há algumas semanas penso no que li logo no comecinho da história, daí essa edição um tanto diferente da newsletter. Ao devanear sobre sua conversão à Igreja católica, o protagonista entrelaça arte com religião e solta essa beleza:
“Tudo conduz a Deus, e visto assim todas as religiões são a mesma, eu penso, e visto assim religião e arte são uma coisa só, também porque tanto a Bíblia como a liturgia são ficção e poesia e pintura são literatura e teatro e artes plásticas, e assim todas encerram sua própria verdade, pois é óbvio que a arte contém sua verdade”.
Clube de Leitura Página Cinco
Já sabem da novidade, né?
Neste semestre leremos um livro a mais, um Dostoiévski. Conversaremos sobre “Memórias do Subsolo” em maio (tenho aqui a edição da 34 com tradução de Boris Schnaiderman, mas podem escolher outras).
O segundo semestre, recordo, será dedicado à literatura brasileira. A programação está assim:
No dia 30 de março, às 20h, encontro para papearmos sobre a vida.
No dia 27 de abril, às 20h, conversaremos sobre “O Bom Mal”, de Samanta Schweblin (Fósforo, tradução de Livia Deorsola)
LEITURA EXTRA: No dia 25 de maio, às 20h, conversaremos sobre “Memórias do Subsolo”, do Dostoiévski
No dia 22 de junho, às 20h, conversaremos sobre “O País dos Outros”, de Leïla Slimani (Intrínseca, tradução de Dorothée de Bruchard)
Em agosto teremos “Louças de Família”, de Eliane Marques (Autêntica Contemporânea)
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Excelente texto (sobre o valor e arte e da literatura e sua contribuição imprescindível para a constituição do humano)
Quero muito ler esse livro do Cercas! Deve ser uma experiência interessante (que eu com certeza recusaria kkkkkkkkk). O invisível mais bonito é o da arte!